No capítulo anterior, Pamela Natasha despenca do desfiladeiro com o seu carro conversível numa tentativa frustrada de impedir o encontro entre Clóvis Carlos e Melissa Helena no mirante. E agora fiquem com o último capítulo de Sangue, Suor e Amores Sôfregos. A sua novela no Saturno Negro.
- Oh, Clóvis Carlos! Agora que nos livramos da perseguição sem fim de Pamela Natasha, podemos finalmente viver o nosso amor!
- Eu não tenho tanta certeza, Melissa Helena...
- Meu amor, do que você está falando?
- Eu tenho uma revelação muito importante a fazer... E que pode mudar os rumos desta história.
- Uma revelação, meu amor? Mas o que poderá ser a essa altura do campeonato? Estamos no último capítulo! Você me beija e vivemos felizes para sempre! Pelo amor de Deus, não vai me dizer que você é tipo um irmão desaparecido...
- Hmmm, não.
- Então é uma doença terminal e você vai morrer em breve?
- Também não...
- Mas então que revelação é essa que pode acabar com a nossa felicidade? Vamos, diga de uma vez, Clóvis Carlos! Não me deixe aflita!
- Melissa Helena, eu sou gay!
- Oh!!! Não pode ser!
- Sim, sim, sim! Pode ser e é! Eu sou gay, Melissa Helena!
- Oh, não, Clóvis Carlos!
- Oh, sim, Melissa Helena! Porra, eu estou há duzentos capítulos tentando lhe dizer isso de uma forma sutil, mas você também é uma anta, né?
- Clóvis Carlos, isso não pode ser verdade... E se for, por que não disse antes?
- Como se eu pudesse dizer alguma coisa com tanto contrato de merchandising nesta novela. Os patrocinadores censuraram o assunto. Tudo o que eu podia fazer era dar sinais. Só que você é uma tapada, Melissa Helena! E agora que estamos no último capítulo, resolvi chutar o balde, gracinha.
- E-e-eu não posso acreditar nisso, meu amor!
- “Meu amor”, “meu amor”! Por favor, né, Melissa Helena... Se eu realmente estivesse a fim de você, eu já teria te catado nos primeiros capítulos da novela. Vamos acordar pra vida?
- É que eu pensei que... Mas tinha ela... A constante presença daquela megera sabotando a nossa felicidade... A culpa era toda daquela bruxa da Pamela Natasha! Foi por isso que não ficamos juntos antes.
- A Pam era a minha melhor amiga. E ela morreu tentando me ajudar a te fazer enxergar a verdade. Veio correndo aqui... E, no fim, ela pagou o preço por mostrar iniciativa...
- “Pam”?
- E tem mais. Mesmo se eu não fosse gay, eu não ficaria com você.
- Não???
- Não.
- Clóvis Carlos... Por que está me dizendo estas coisas tão horríveis? Logo agora. Você sempre foi tão gentil comigo.
- Sim, queridinha. Eu sempre fui gentil. Só que você é completamente descompensada e confundiu gentileza com outra coisa. Agora só me resta ser grosseiro mesmo. O que é horrível pra pele... Droga, Melissa Helena, olha o meu estado! É tudo culpa sua!
- A minha culpa, Clóvis Carlos, é te amar.
- Ai, que chata repetitiva! Isso não é amor, sua maluca! É TOC. Estou de saco cheio de você. Vive nesta perseguição cega. Não faz outra coisa... Vem cá, no começo da novela você não tinha dito que era professora?
- Eu sou, Clóvis Carlos.
- Engraçado que se passaram duzentos capítulos e eu não vi você chegar perto de um livro sequer. Não teve um take em portão de escola. Ao invés de passar a novela inteira me perseguindo você bem que poderia estar numa sala de aula trabalhando. Ou em passeata de greve... Pelo menos o personagem ficaria mais verossímil.
- Mas, Clóvis Carlos, não existe greve numa novela. Só existe o amor.
- Então, Melissinha Heleninha, as novelas estão redondamente enganadas. Aliás, eu nunca gostei de novela. Só estou aqui porque o cachê vai pagar minhas férias no verão de Ibiza.
- I-i-isso não está certo... Meu amor, você está confuso. Foram as artimanhas daquela vilã inescrupulosa da Pamela Natasha. Ela fez uma lavagem cerebral em você. Deixa eu te beijar que você vai se recordar do nosso lindo amor.
- Sai pra lá, sua grudenta! E não ouse falar mal da Pam, que Deus a tenha... Já não basta você ter praticamente empurrado a coitada desfiladeiro abaixo? Agora vai ficar falando mal sem que ela esteja aqui para se defender? Afinal quem é a vilã desta história?
- Pamela Natasha, ué! Ela era a vilã! Meu amor, ela tinha até um lacaio, aquele esquisitão do Fernando Orlando.
- Em primeiro lugar, me faz um favor, Melissa Helena? Pare de me chamar de “meu amor”? Obrigado. Em segundo lugar, Fernando Orlando não era lacaio de Pamela Natasha... Ele é o meu namorado.
- O quê????? Isso não é possível, Clóvis Carlos! Ele tem um caso com Pamela Natasha! Se lembra no capítulo 78, quando pegamos os dois na cama?
- Sim. Eles transaram. Porque eu e Fernando Orlando decidimos ter um filho. E a Pam resolveu nos ajudar se oferecendo de barriga de aluguel. Se fosse menino se chamaria Clóvis Orlando. Menina, seria Fernanda Carla. Mas sabe o que aconteceu, Melissa Helena?
- O que, meu am... hã... Clóvis Carlos?
- Aconteceu que o nosso filho acabou de descer o desfiladeiro à nossa frente, dentro do ventre de Pamela Natasha.
- Oh!!!!
- Sim, sua maníaca. Você é responsável pela morte não só de minha melhor amiga, como também de meu filho... Você destruiu a minha família, Melissa Helena.
- Buááá!!! Eu não estou entendendo mais nada! Este é o último capítulo da novela! Era pra você me beijar e a gente ia se casar e a ter uma casinha com cerquinha branca e um casal de filhos e...
- Tá, tá, tá. Eu já sei de tudo isso. Mas entenda uma coisa, fofucha: esta fórmula de novela está batida. Hoje em dia é cada um por si. Acabou! Não existe mais príncipe encantado. Quer fazer algo de produtivo? Já que é professora, se debruce sobre um bom plano de aula e ajude a melhorar a educação neste país. Vai ser um exemplo muito melhor do que ficar correndo atrás de marido.
- M-mas, Clóvis Carlos... Não vai dar tempo de fazer isso. É o último capítulo da novela.
- Poutz, é mesmo. Que coisa, não? Mas olha, sempre tem o desfiladeiro...
- O quê? Está insinuando que eu deva me matar? Ficou maluco?
- “Matar” é uma palavra muito forte, honey. Prefiro “eternizar o mito”.
- Mito?
- É a sua chance de virar uma diva para as gerações futuras! Pense bem: diante de um amor proibido, Melissa Helena toma coragem e se joga rumo ao desconhecido...
- É... Soa bem!
- Então, Mê... Se joga!
- É, né... Acho que, depois de tudo... É o melhor a ser feito. Clóvis Carlos, eu só queria que você soubesse que...
- Eu já sei, eu já sei! Demorô! Vai.
- Adeeeeeuuuusssss....
- Me livrei, finalmente! E ainda tenho quinze minutos antes de subir os créditos. Acho que vou convidar o Fê pra ir na Mostra de Cinema, no Festival de Teatro ou na Feira do Livro. Qualquer coisa serve, desde que não seja ficar em casa sentado na frente da TV por duzentos dias a fio. Tá louco, isso não é vida.
The End.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Meia palavra basta
- Olha só quem eu encontro aqui!
- Nossa, que surpresa! Quanto tempo, hein?
- Desde a faculdade...
- Que bom esbarrar em você. Só que estou atrasado para um compromisso. Podemos nos falar outra hora? Você tem Facebook?
- Não tenho, não. Eu não confio muito nestas redes sociais...
- Entendi.
- O quê?
- “O que” o quê?
- O que você entendeu?
- Hmmm, nada não.
- Não foi o que você disse. Tenho certeza de ter escutado com todas as letras: “entendi”.
- Sim, eu disse isso... Mas...
- Nada de “mas”... Desembucha: o que tem pra ser entendido?
- Nada ué.
- Não desconversa! Eu quero saber o que você pescou do que eu falei. Quem mandou você aqui?
- Ninguém me mandou aqui! Eu só estava passando e...
- Você está me seguindo desde a faculdade?
- Não seja louco!
- Louco eu estou pra saber o que você entendeu do que eu falei a respeito de redes sociais. O Zuckerberg te mandou aqui?
- Zucker quem? Olha, eu não estou gostando do rumo desta conversa. Você está equivocado nas suas suposições.
- Então qual é o problema? Esse “entendi”, por acaso, é algum julgamento por eu não ter um perfil no Facebook?
- Não! Nada disso... Eu só... Olha, eu estou mesmo atrasado. A gente se fala.
- Querendo fugir, hein, espertinho? Não sem antes você me dizer o que você entendeu.
- Olha. Fica tranqüilo... É só uma maneira de falar. As pessoas dizem “entendi” o tempo todo.
- Mesmo quando elas não entendem nada?
- É. Acho que sim.
- Hmmm. Entendi.
- Ufa, ainda bem que entendeu.
- Não, na verdade não entendi nada. Mas como você diz que as pessoas falam isso mesmo quando não entendem, resolvi dizer. Entendeu?
- Olha, eu já não estou entendendo mais nada. Posso ir embora?
- Ah, já sei. Você, através desta resposta misteriosa, “entendi”, você introduziu, de forma subliminar, um julgamento preconceituoso. Tipo: “é um daqueles atrasados que não tem rede social”. A ponto de me constranger e me fazer criar um perfil no Facebook. E só assim, ter ferramentas para bisbilhotar a minha vida.
- Hã?
- Vamos! Desembucha! O que você quer saber da minha vida? PERGUNTA NA MINHA CARA!
- Olha, amigo, você está realmente me assustando. Eu não quero saber nada! Eu não quero entender nada! Por favor, SÓ ME DEIXA EM PAZ!!! Eu tenho um compromisso e não posso ficar aqui sustentando esta discussão maluca!
- Ai, desculpa. Desculpa. Tudo bem... Eu me descontrolei. Eu sou meio assim às vezes. Um pouco desconfiado.
- Credo... Você me parecia mais sossegado na faculdade...
- Bem, a vida não tem sido fácil, então a gente acaba desenvolvendo algumas defesas ao longo do tempo. Enfim...
- Sei...
- O quê?
- “O que” o quê?
- O que você sabe?
- Nossa, que surpresa! Quanto tempo, hein?
- Desde a faculdade...
- Que bom esbarrar em você. Só que estou atrasado para um compromisso. Podemos nos falar outra hora? Você tem Facebook?
- Não tenho, não. Eu não confio muito nestas redes sociais...
- Entendi.
- O quê?
- “O que” o quê?
- O que você entendeu?
- Hmmm, nada não.
- Não foi o que você disse. Tenho certeza de ter escutado com todas as letras: “entendi”.
- Sim, eu disse isso... Mas...
- Nada de “mas”... Desembucha: o que tem pra ser entendido?
- Nada ué.
- Não desconversa! Eu quero saber o que você pescou do que eu falei. Quem mandou você aqui?
- Ninguém me mandou aqui! Eu só estava passando e...
- Você está me seguindo desde a faculdade?
- Não seja louco!
- Louco eu estou pra saber o que você entendeu do que eu falei a respeito de redes sociais. O Zuckerberg te mandou aqui?
- Zucker quem? Olha, eu não estou gostando do rumo desta conversa. Você está equivocado nas suas suposições.
- Então qual é o problema? Esse “entendi”, por acaso, é algum julgamento por eu não ter um perfil no Facebook?
- Não! Nada disso... Eu só... Olha, eu estou mesmo atrasado. A gente se fala.
- Querendo fugir, hein, espertinho? Não sem antes você me dizer o que você entendeu.
- Olha. Fica tranqüilo... É só uma maneira de falar. As pessoas dizem “entendi” o tempo todo.
- Mesmo quando elas não entendem nada?
- É. Acho que sim.
- Hmmm. Entendi.
- Ufa, ainda bem que entendeu.
- Não, na verdade não entendi nada. Mas como você diz que as pessoas falam isso mesmo quando não entendem, resolvi dizer. Entendeu?
- Olha, eu já não estou entendendo mais nada. Posso ir embora?
- Ah, já sei. Você, através desta resposta misteriosa, “entendi”, você introduziu, de forma subliminar, um julgamento preconceituoso. Tipo: “é um daqueles atrasados que não tem rede social”. A ponto de me constranger e me fazer criar um perfil no Facebook. E só assim, ter ferramentas para bisbilhotar a minha vida.
- Hã?
- Vamos! Desembucha! O que você quer saber da minha vida? PERGUNTA NA MINHA CARA!
- Olha, amigo, você está realmente me assustando. Eu não quero saber nada! Eu não quero entender nada! Por favor, SÓ ME DEIXA EM PAZ!!! Eu tenho um compromisso e não posso ficar aqui sustentando esta discussão maluca!
- Ai, desculpa. Desculpa. Tudo bem... Eu me descontrolei. Eu sou meio assim às vezes. Um pouco desconfiado.
- Credo... Você me parecia mais sossegado na faculdade...
- Bem, a vida não tem sido fácil, então a gente acaba desenvolvendo algumas defesas ao longo do tempo. Enfim...
- Sei...
- O quê?
- “O que” o quê?
- O que você sabe?
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Primeiras pessoas do singular
Boa tarde a todos. Estou muito feliz de estar aqui hoje com vocês, neste encontro dos Autólatras Anônimos. Estou aqui para dar o meu depoimento... Hoje, e só por hoje, eu não postei nenhuma opinião no meu perfil virtual. Ainda...
Bom, pra começar, o meu nome é Guilherme Luiz, vulgo Guilú. Provavelmente eu estou adicionado em alguma rede social de pelo menos metade das pessoas do recinto. Eu sei que sim. Tá certo que aqui é o encontros dos autólatras “anônimos”. Mas antes de ser um anônimo, eu sou um autólatra. E a autolatria é um vício muito difícil de superar. Então, eu não admito o anonimato.
Na verdade, eu nunca fui narcisista. Sequer tinha vaidade, fosse ela física ou intelectual. Inclusive, na minha casa só tinha um espelho que ficava no banheiro. E ele só pegava do peito pra cima. Eu era um cara normal e ia levando a minha vida. Minha condição de autólatra veio junto com a internet. Uma amiga me convidou a montar um perfil no Facebook. Aceitei na inocência... Mal sabia eu que seria o começo do fim.
Uma rede social é um altar para a autolatria. Qualquer abnegado, cedo ou tarde, é convertido num devoto de si mesmo. Basta postar a primeira bobagem que sirva só de legenda para ações corriqueiras, como “fui beber água” ou “carregando o celular”, que é dado o primeiro passo para o caminho sem volta da produção de lixo verbal não reciclável.
Você pensa que está no controle, (óbvio, afinal, todo autólatra pensa que está no controle), mas na verdade você é dominado por uma energia que vai te consumindo. É mais forte que você. Chega uma hora que não basta postar frases aleatórias no seu mural. Você tem que comentar a postagem de seus contatos virtuais. E, além de comentar, curtir as bobagens alheias. E curtir os comentários das bobagens... Ah, e curtir fotos. E comentar as fotos curtidas. Mas fundo do poço mesmo é comentar a mudança de estado civil das pessoas. Acho que é culpa daquele coraçãozinho que aparece. Sei lá, ele grita na tela...
De repente você se pega no Google, pesquisando sites de citações para alimentar a fogueira de opiniões gratuitas que arde no seu monitor. Vale tudo: de Aristóteles a Ari Toledo. Se render uma profusão de letras K nos comentários conta pontos.
Até que chega o momento em que só o monitor do seu PC não basta. E você se desfaz do seu plano de saúde para poder bancar um smart phone com acesso remoto de internet. É o ponto em que sua vida vira um desastre completo. Você não consegue ver um filme de cinema, dançar numa festa, conversar no boteco... Nada! Você está ali, com a cara enfiada no aparelhinho, e seus dedos lutando para construir palavras num teclado impossível para mãos humanas. A tela touch screen deve ser alguma forma de castigo divino. De brinde, uma cifose crônica. E, neste ritmo, você vai perdendo a postura, a compostura, os amigos, a casamento e a promoção no trabalho... A destino do autólatra é um só: a masturbação.
Por isso eu procurei vocês, do Autólatras Anônimos... Não que eu realmente queira me curar. Aliás, muito antes pelo contrário: quando eu soube que tinha um pequeno palanque com púlpito e microfone, não pensei duas vezes em vir pra cá dar minha opinião. Alguém quer comentar? Alguém vai curtir? Se quiserem compartilhar algum trecho do depoimento, aquela parte “devoto de si mesmo” é do caralho! Não se esqueçam de linkar o meu nome. Eu sou Guilú! Me adicionem!
Bom, pra começar, o meu nome é Guilherme Luiz, vulgo Guilú. Provavelmente eu estou adicionado em alguma rede social de pelo menos metade das pessoas do recinto. Eu sei que sim. Tá certo que aqui é o encontros dos autólatras “anônimos”. Mas antes de ser um anônimo, eu sou um autólatra. E a autolatria é um vício muito difícil de superar. Então, eu não admito o anonimato.
Na verdade, eu nunca fui narcisista. Sequer tinha vaidade, fosse ela física ou intelectual. Inclusive, na minha casa só tinha um espelho que ficava no banheiro. E ele só pegava do peito pra cima. Eu era um cara normal e ia levando a minha vida. Minha condição de autólatra veio junto com a internet. Uma amiga me convidou a montar um perfil no Facebook. Aceitei na inocência... Mal sabia eu que seria o começo do fim.
Uma rede social é um altar para a autolatria. Qualquer abnegado, cedo ou tarde, é convertido num devoto de si mesmo. Basta postar a primeira bobagem que sirva só de legenda para ações corriqueiras, como “fui beber água” ou “carregando o celular”, que é dado o primeiro passo para o caminho sem volta da produção de lixo verbal não reciclável.
Você pensa que está no controle, (óbvio, afinal, todo autólatra pensa que está no controle), mas na verdade você é dominado por uma energia que vai te consumindo. É mais forte que você. Chega uma hora que não basta postar frases aleatórias no seu mural. Você tem que comentar a postagem de seus contatos virtuais. E, além de comentar, curtir as bobagens alheias. E curtir os comentários das bobagens... Ah, e curtir fotos. E comentar as fotos curtidas. Mas fundo do poço mesmo é comentar a mudança de estado civil das pessoas. Acho que é culpa daquele coraçãozinho que aparece. Sei lá, ele grita na tela...
De repente você se pega no Google, pesquisando sites de citações para alimentar a fogueira de opiniões gratuitas que arde no seu monitor. Vale tudo: de Aristóteles a Ari Toledo. Se render uma profusão de letras K nos comentários conta pontos.
Até que chega o momento em que só o monitor do seu PC não basta. E você se desfaz do seu plano de saúde para poder bancar um smart phone com acesso remoto de internet. É o ponto em que sua vida vira um desastre completo. Você não consegue ver um filme de cinema, dançar numa festa, conversar no boteco... Nada! Você está ali, com a cara enfiada no aparelhinho, e seus dedos lutando para construir palavras num teclado impossível para mãos humanas. A tela touch screen deve ser alguma forma de castigo divino. De brinde, uma cifose crônica. E, neste ritmo, você vai perdendo a postura, a compostura, os amigos, a casamento e a promoção no trabalho... A destino do autólatra é um só: a masturbação.
Por isso eu procurei vocês, do Autólatras Anônimos... Não que eu realmente queira me curar. Aliás, muito antes pelo contrário: quando eu soube que tinha um pequeno palanque com púlpito e microfone, não pensei duas vezes em vir pra cá dar minha opinião. Alguém quer comentar? Alguém vai curtir? Se quiserem compartilhar algum trecho do depoimento, aquela parte “devoto de si mesmo” é do caralho! Não se esqueçam de linkar o meu nome. Eu sou Guilú! Me adicionem!
domingo, 26 de junho de 2011
O que os ouvidos não escutam o coração não sente
Você leria o livro de alguém que não sabe escrever? Iria à exposição de alguém que não sabe pintar? Comeria o prato de alguém que não sabe cozinhar? Iria pra cama com alguém que não sabe beijar? Abriria sociedade com alguém que não sabe ganhar dinheiro?
Se você tem coerência no coração (ao invés daquele carpinteiro que não desgrudava da prostituta) e respondeu “não” para as questões levantadas anteriormente, aqui está a pergunta que não quer calar: por que raios alguém deveria assistir à apresentação de alguém que não sabe cantar?
Não estou falando da Britney Spears (ainda). No momento estou mirando no conjuntinho monitor com legendas, caixa de som e microfone. Sim, ele mesmo: o karaokê. E venho aqui fazer um alerta sobre os riscos de cantar e cantar e cantar na beleza de ser um eterno aprendiz.
Você realmente acredita que o vulgo “videokê” é uma opção divertida? Cuidado! Talvez a produção de cera em seus ouvidos esteja chegando ao ponto da surdez irreversível. Comparecer a uma festinha de cantores de primeira viagem é uma lenta descida ao inferno, onde indivíduos aparentemente inofensivos resolvem arriscar uma performance vocal (leia-se um ataque de insuficiência respiratória amplificada por microfone) capaz de derreter o cérebro de qualquer um que tenha ouvidos mais sensíveis. É uma viagem sem volta à estrada da cacofonia.
Aqui temos o desabafo de Cíntia, nome fictício para preservar a autora do depoimento, onde relata como sua vida foi marcada depois de passar uma noite com amigos num bizarro show de calouros: “eu estava em casa, sem fazer nada, retirando esmalte das unhas com acetona e curtindo posts no Facebook, quando a Suzana me ligou convidando para ir num barzinho de videokê. De primeira recusei, até porque eu não sei cantar. Mas ela disse que o Serginho estaria lá, então eu pensei: que mal tem em ver algumas pessoas cantando? Vá que eu me divirta e ainda tiro uma lasquinha do Serginho... Chegando lá, senti um clima esquisito no ambiente. A expressão no rosto das pessoas era de ‘agora vocês vão ver a verdadeira estrela que há em mim’. A coisa pegou pra valer mesmo quando uma asmática arriscou Força Estranha do Roberto Carlos. Foi o começo de uma longa noite de dor e desespero. Depois disso, nunca mais vou conseguir encarar uma música da Marisa Monte. E nem ao menos consegui beijar o gato do Serginho”.
Mas o que leva uma pessoa desprovida de gogó cantar em público? Estaria ela em busca de aplausos de comiseração por parte de seus entes queridos? Por que ela simplesmente não canta no chuveiro como faz todo ser humano ciente de seus limites vocais? Ou será que habituês de karaokê não tomam banho? Muitas são as teorias que tentam explicar o sucesso desta invenção diabólica da terra do sol nascente. Nietzsche, por exemplo, especula sobre o desafio de sobreviver a uma sessão de karaokê a fim de se tornar uma pessoa melhor: "aquilo que não me destrói fortalece-me". Já Freud, que adora sensualizar, alega que não é uma simples questão musical, mas sim de ter o microfone, símbolo fálico do poder, em mãos.
Seja qual for a explicação para o sucesso deste vil entretenimento que faz Cazuza, Renato Russo e Elvis Presley se revirarem nos seus respectivos túmulos, o fato é que a disseminação da cultura de lamúrias microfonadas tomou proporções dantescas. Até o Multishow resolveu colocar legenda nos seus videoclipes, para se ter uma noção de tão nefasta influência.
Imbuidos do ditado que diz “quem canta seus males espanta”, os cantores de videokê estão construindo promissoras carreiras. São estrelas de forró, sertanejo e qualquer outro gênero com alcunha de “universitário”, mas que nunca passaram pela avaliação do MEC. Por outro lado, cresce a dissidência mais moderna, que faz pouco caso de regionalismos, capricham no figurino, na poker face e conseguem piorar a sua sofreguidão vocal com a utilização de vocoders e batidas eletrônicas. Em suma, não existe distinção de tribos: os filhos do karaokê estão espalhados pelo mundo. A Johnson & Johnson nunca vendeu tanto cotonete na sua história.
Muitos se perguntam onde foram parar as pessoas que realmente sabem cantar. Esta é uma questão bastante pertinente. Há os que acreditam numa grande greve de silêncio por parte dos artistas da categoria. Existe também a tese de que estão vendendo cachorro-quente numa van em frente ao estádio que lota com a apresentação das celebridades afônicas. Em algum momento ali atrás, música deixou de ser arte para se tornar uma disputa de auto-afirmação. E o microfone é de quem chegar primeiro.
Se você tem coerência no coração (ao invés daquele carpinteiro que não desgrudava da prostituta) e respondeu “não” para as questões levantadas anteriormente, aqui está a pergunta que não quer calar: por que raios alguém deveria assistir à apresentação de alguém que não sabe cantar?
Não estou falando da Britney Spears (ainda). No momento estou mirando no conjuntinho monitor com legendas, caixa de som e microfone. Sim, ele mesmo: o karaokê. E venho aqui fazer um alerta sobre os riscos de cantar e cantar e cantar na beleza de ser um eterno aprendiz.
Você realmente acredita que o vulgo “videokê” é uma opção divertida? Cuidado! Talvez a produção de cera em seus ouvidos esteja chegando ao ponto da surdez irreversível. Comparecer a uma festinha de cantores de primeira viagem é uma lenta descida ao inferno, onde indivíduos aparentemente inofensivos resolvem arriscar uma performance vocal (leia-se um ataque de insuficiência respiratória amplificada por microfone) capaz de derreter o cérebro de qualquer um que tenha ouvidos mais sensíveis. É uma viagem sem volta à estrada da cacofonia.
Aqui temos o desabafo de Cíntia, nome fictício para preservar a autora do depoimento, onde relata como sua vida foi marcada depois de passar uma noite com amigos num bizarro show de calouros: “eu estava em casa, sem fazer nada, retirando esmalte das unhas com acetona e curtindo posts no Facebook, quando a Suzana me ligou convidando para ir num barzinho de videokê. De primeira recusei, até porque eu não sei cantar. Mas ela disse que o Serginho estaria lá, então eu pensei: que mal tem em ver algumas pessoas cantando? Vá que eu me divirta e ainda tiro uma lasquinha do Serginho... Chegando lá, senti um clima esquisito no ambiente. A expressão no rosto das pessoas era de ‘agora vocês vão ver a verdadeira estrela que há em mim’. A coisa pegou pra valer mesmo quando uma asmática arriscou Força Estranha do Roberto Carlos. Foi o começo de uma longa noite de dor e desespero. Depois disso, nunca mais vou conseguir encarar uma música da Marisa Monte. E nem ao menos consegui beijar o gato do Serginho”.
Mas o que leva uma pessoa desprovida de gogó cantar em público? Estaria ela em busca de aplausos de comiseração por parte de seus entes queridos? Por que ela simplesmente não canta no chuveiro como faz todo ser humano ciente de seus limites vocais? Ou será que habituês de karaokê não tomam banho? Muitas são as teorias que tentam explicar o sucesso desta invenção diabólica da terra do sol nascente. Nietzsche, por exemplo, especula sobre o desafio de sobreviver a uma sessão de karaokê a fim de se tornar uma pessoa melhor: "aquilo que não me destrói fortalece-me". Já Freud, que adora sensualizar, alega que não é uma simples questão musical, mas sim de ter o microfone, símbolo fálico do poder, em mãos.
Seja qual for a explicação para o sucesso deste vil entretenimento que faz Cazuza, Renato Russo e Elvis Presley se revirarem nos seus respectivos túmulos, o fato é que a disseminação da cultura de lamúrias microfonadas tomou proporções dantescas. Até o Multishow resolveu colocar legenda nos seus videoclipes, para se ter uma noção de tão nefasta influência.
Imbuidos do ditado que diz “quem canta seus males espanta”, os cantores de videokê estão construindo promissoras carreiras. São estrelas de forró, sertanejo e qualquer outro gênero com alcunha de “universitário”, mas que nunca passaram pela avaliação do MEC. Por outro lado, cresce a dissidência mais moderna, que faz pouco caso de regionalismos, capricham no figurino, na poker face e conseguem piorar a sua sofreguidão vocal com a utilização de vocoders e batidas eletrônicas. Em suma, não existe distinção de tribos: os filhos do karaokê estão espalhados pelo mundo. A Johnson & Johnson nunca vendeu tanto cotonete na sua história.
Muitos se perguntam onde foram parar as pessoas que realmente sabem cantar. Esta é uma questão bastante pertinente. Há os que acreditam numa grande greve de silêncio por parte dos artistas da categoria. Existe também a tese de que estão vendendo cachorro-quente numa van em frente ao estádio que lota com a apresentação das celebridades afônicas. Em algum momento ali atrás, música deixou de ser arte para se tornar uma disputa de auto-afirmação. E o microfone é de quem chegar primeiro.
terça-feira, 24 de maio de 2011
O amor é cego e não lê em braile.
- Querida, tenho uma surpresa ótima para você!
- Hmmmm, adoro surpresas ótimas! O que pode ser melhor do que estes bombons trufados depois de fazer um amor gostoso com você?
- A-di-vi-nha!
- Alguma lingerie erótica?
- Não.
- Aquele par de brincos que eu vi no shopping!
- Hmmm.... Não! Melhor ainda!
- Ai, melhor ainda? Deixa eu ver... Um final de semana em Buenos Aires para dançar tango!
- Muito melhor!
- Gente! Que aflição! Conta logo o que é!
- Como você havia sugerido... Eu me livrei da minha mulher!
- Se livrou da sua mulher? É sério isso? Mesmo?
- Sim! Não é demais?
- Oh, my God! Eu nunca pensei que ela iria concordar com a separação...
- E não iria mesmo. Por isso eu a matei.
- Ma-matou? Querido, como assim? Matou de matar?
- Sim, como você havia sugerido, meu bem!
- M-m-mas, meu amor. Eu sugeri você “se livrar” dela. Não “matá-la”!
- E você acha que eu conseguiria me livrar dela de outra forma?
- Da forma tradicional, ué! Da mesma maneira como acabam todos os casamentos: divórcio!
- Você não sabe o demônio que era aquela mulher. Ela jamais me daria o divórcio sem antes tirar tudo de mim. Então resolvi ser prático. Agora podemos curtir nossa vida como bem entendermos.
- Calma. Muita calma nesta hora. Não é bem assim.
- Como “não é bem assim”? Você não me queria só pra você? Agora tem.
- Isso quando você era um banqueiro renomado. Agora que você é um fugitivo procurado, eu não sei se o que sinto por você é o mesmo...
- Eu não sou um fugitivo procurado. Ninguém está me procurando! Foi o crime perfeito! Ninguém vai me denunciar. Só você está sabendo... Ah, não ser que você... Não... Você não seria capaz... Seria?
- Eu tenho princípios éticos que me obrigam a tomar uma atitude em relação a isso...
- Ah, certo. Agora você é ética. Na hora de roubar o marido das outras, tudo bem, não é?
- Olha, querido. Adultério é uma coisa. Ser cúmplice de assassinato são outros quinhentos euros.
- Eu não estou entendendo. Eu fiz tudo como você pediu. Você não percebe?
- Honey, você concebe que euzinha não pedi para você matar a sua mulher. Você está maluco!!!
- Sim, maluco! Maluco por você! Eu sempre fiz tudo o que você sempre quis, não fiz? Realizei todas as suas fantasias tresloucadas que eu jamais concebia na minha vida de casado! Usei cuequinha fio-dental, gel anestesiante... Até beijo grego eu fiz em você.
- E bem que você gostou.
- Gostei, mas me deu sapinho na boca depois. Explicar aquilo para a falecida foi uma dor de cabeça...
- Ah, agora está me chamando de suja... Olha aqui, fique sabendo que o sujo é você, seu criminoso frio! Coitada da sua esposa, viu? Ela não merecia este destino.
- Eu não entendo! Agora você está do lado dela!
- O que você quer dizer com isso? De que “estou do lado dela”... Vai me colocar numa cova ao lado dela? Você vai me matar também? É isso? Vai me calar na marra? Pois fique sabendo que eu não tenho medo de você!!!
- Deixa de ser boba! Eu não quero matá-la! Eu quero me casar com você!
- Casar comigo?
- Sim, meu amor!
- Mas... e se eu for a sua esposa... Você ainda vai querer realizar minhas fantasias?
- Todas elas!
- Até o beijo grego?
- Sim!
- Com chantilly?
- Com chantilly e tudo mais!
- Ah, meu amor... Eu também queria me casar com você... Mas você estragou tudo! Você sujou suas mãos de sangue...
- Não é pra tanto também né, querida... “Sujou suas mãos de sangue”... Fiz quase nada! Ela já estava pra morrer mesmo, de tanto remédio que ela tomava. Eu só dei um empurrãozinho... Troquei os remédios de embalagem. Na dosagem das dez horas ela tomou o das vinte e uma, às quinze ela tomou o das dez e às vinte e uma ela tomou o das quinze. Deu um revertério e pimba!
- Pimba?
- É, pimba!
- Mas... E se você enjoar de mim depois? Você vai me matar também?
- Ah, o que é isso, meu amor... Eu te amo! Jamais cogitaria de fazer algo assim com você! O que você quer que eu faça para você se acalmar? Quer que eu vista aquela calcinha com cinta-liga para você me chicotear? Quer queimar meus mamilos com cera de vela derretida?
- Hmmmm...
- Vem aqui, sua danada, que eu quero te matar. Te matar de prazer!
- Ah, seu... Seu... Seu bandidão!
- Sim, eu sou o seu bandidão. Vem cá, vem, com o bandidão!
- Tá bom... Eu aceito me casar com você.
- Ah, que maravilha! Estou tão feliz!
- Mas com uma condição...
- Me diga, minha querida. Qual é a sua condição! Eu faço o que você quiser! Eu já disse que sou louco por você!
- Aquela sua filha... Eu sei que você a ama e tudo mais. Só que eu duvido que ela vá me aceitar no lugar da mãe dela.
- Será? Mas a minha filha é uma garota tão compreensiva... Já é adulta! Ela vai entender que você não estará tomando o lugar de ninguém. Eu acho, pelo menos...
- Vai por mim, querido. Eu entendo as mulheres melhor do que você. Perder a mãe assim, de repente, é um trauma insuperável. Ela vai me odiar assim que eu botar os meus saltinhos-agulha no assoalho daquela mansão.
- É... O que você diz tem lá sua lógica... Ela pode mesmo se tornar um problema... Mas o que você sugere que eu faça?
- Livre-se dela.
- Hmmmm, adoro surpresas ótimas! O que pode ser melhor do que estes bombons trufados depois de fazer um amor gostoso com você?
- A-di-vi-nha!
- Alguma lingerie erótica?
- Não.
- Aquele par de brincos que eu vi no shopping!
- Hmmm.... Não! Melhor ainda!
- Ai, melhor ainda? Deixa eu ver... Um final de semana em Buenos Aires para dançar tango!
- Muito melhor!
- Gente! Que aflição! Conta logo o que é!
- Como você havia sugerido... Eu me livrei da minha mulher!
- Se livrou da sua mulher? É sério isso? Mesmo?
- Sim! Não é demais?
- Oh, my God! Eu nunca pensei que ela iria concordar com a separação...
- E não iria mesmo. Por isso eu a matei.
- Ma-matou? Querido, como assim? Matou de matar?
- Sim, como você havia sugerido, meu bem!
- M-m-mas, meu amor. Eu sugeri você “se livrar” dela. Não “matá-la”!
- E você acha que eu conseguiria me livrar dela de outra forma?
- Da forma tradicional, ué! Da mesma maneira como acabam todos os casamentos: divórcio!
- Você não sabe o demônio que era aquela mulher. Ela jamais me daria o divórcio sem antes tirar tudo de mim. Então resolvi ser prático. Agora podemos curtir nossa vida como bem entendermos.
- Calma. Muita calma nesta hora. Não é bem assim.
- Como “não é bem assim”? Você não me queria só pra você? Agora tem.
- Isso quando você era um banqueiro renomado. Agora que você é um fugitivo procurado, eu não sei se o que sinto por você é o mesmo...
- Eu não sou um fugitivo procurado. Ninguém está me procurando! Foi o crime perfeito! Ninguém vai me denunciar. Só você está sabendo... Ah, não ser que você... Não... Você não seria capaz... Seria?
- Eu tenho princípios éticos que me obrigam a tomar uma atitude em relação a isso...
- Ah, certo. Agora você é ética. Na hora de roubar o marido das outras, tudo bem, não é?
- Olha, querido. Adultério é uma coisa. Ser cúmplice de assassinato são outros quinhentos euros.
- Eu não estou entendendo. Eu fiz tudo como você pediu. Você não percebe?
- Honey, você concebe que euzinha não pedi para você matar a sua mulher. Você está maluco!!!
- Sim, maluco! Maluco por você! Eu sempre fiz tudo o que você sempre quis, não fiz? Realizei todas as suas fantasias tresloucadas que eu jamais concebia na minha vida de casado! Usei cuequinha fio-dental, gel anestesiante... Até beijo grego eu fiz em você.
- E bem que você gostou.
- Gostei, mas me deu sapinho na boca depois. Explicar aquilo para a falecida foi uma dor de cabeça...
- Ah, agora está me chamando de suja... Olha aqui, fique sabendo que o sujo é você, seu criminoso frio! Coitada da sua esposa, viu? Ela não merecia este destino.
- Eu não entendo! Agora você está do lado dela!
- O que você quer dizer com isso? De que “estou do lado dela”... Vai me colocar numa cova ao lado dela? Você vai me matar também? É isso? Vai me calar na marra? Pois fique sabendo que eu não tenho medo de você!!!
- Deixa de ser boba! Eu não quero matá-la! Eu quero me casar com você!
- Casar comigo?
- Sim, meu amor!
- Mas... e se eu for a sua esposa... Você ainda vai querer realizar minhas fantasias?
- Todas elas!
- Até o beijo grego?
- Sim!
- Com chantilly?
- Com chantilly e tudo mais!
- Ah, meu amor... Eu também queria me casar com você... Mas você estragou tudo! Você sujou suas mãos de sangue...
- Não é pra tanto também né, querida... “Sujou suas mãos de sangue”... Fiz quase nada! Ela já estava pra morrer mesmo, de tanto remédio que ela tomava. Eu só dei um empurrãozinho... Troquei os remédios de embalagem. Na dosagem das dez horas ela tomou o das vinte e uma, às quinze ela tomou o das dez e às vinte e uma ela tomou o das quinze. Deu um revertério e pimba!
- Pimba?
- É, pimba!
- Mas... E se você enjoar de mim depois? Você vai me matar também?
- Ah, o que é isso, meu amor... Eu te amo! Jamais cogitaria de fazer algo assim com você! O que você quer que eu faça para você se acalmar? Quer que eu vista aquela calcinha com cinta-liga para você me chicotear? Quer queimar meus mamilos com cera de vela derretida?
- Hmmmm...
- Vem aqui, sua danada, que eu quero te matar. Te matar de prazer!
- Ah, seu... Seu... Seu bandidão!
- Sim, eu sou o seu bandidão. Vem cá, vem, com o bandidão!
- Tá bom... Eu aceito me casar com você.
- Ah, que maravilha! Estou tão feliz!
- Mas com uma condição...
- Me diga, minha querida. Qual é a sua condição! Eu faço o que você quiser! Eu já disse que sou louco por você!
- Aquela sua filha... Eu sei que você a ama e tudo mais. Só que eu duvido que ela vá me aceitar no lugar da mãe dela.
- Será? Mas a minha filha é uma garota tão compreensiva... Já é adulta! Ela vai entender que você não estará tomando o lugar de ninguém. Eu acho, pelo menos...
- Vai por mim, querido. Eu entendo as mulheres melhor do que você. Perder a mãe assim, de repente, é um trauma insuperável. Ela vai me odiar assim que eu botar os meus saltinhos-agulha no assoalho daquela mansão.
- É... O que você diz tem lá sua lógica... Ela pode mesmo se tornar um problema... Mas o que você sugere que eu faça?
- Livre-se dela.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Quer teclar? Pergunte-me como.
Hoje vamos analisar a lista de contatos do messenger mais popular do mundo: o MSN.
Para quem não sabe o que é MSN, aqui vai uma introdução: Deus criou o homem. O homem criou o MSN. Mais detalhes na Wikipedia.
Já quem apenas faz que não sabe o que é MSN (“eu uso skype”), vai correndo ali na esquina que estão precisando de você para um instigante debate sobre as diferenças gritantes entre Coca e Pepsi.
Aos que sabem muito bem o que é MSN, e já se autoescravizaram no bate-papo virtual, vamos ao que interessa.
Na lista de contatos do MSN, existem quatro maneiras de se apresentar aos amigos: ausente, ocupado, invisível e disponível. Atentem que eu coloquei disponível por último, apesar de que, via de regra, seria o status principal de apresentação de um messenger. Mas em tempos individualistas, ninguém realmente quer estar disponível. Portanto começaremos nossa análise pelo ausente.
O ausente é aquele tipo antipático que não tem pudor em ser desagradável. Interagir com outras pessoas pra ele, mesmo que de forma virtual, é uma experiência incômoda. A bolinha laranja defende a seguinte premissa: “olha, eu até estou aqui, mas faz de conta que não estou, okay?”. Se você ainda tiver disposição para insistir e puxar conversa (que, neste caso, invariavelmente começa com “oi, você está aí?”), ele ainda vai demorar um ou dois minutos para responder, num esforço patético de simular que realmente estava ausente. É um depressivo crônico que nunca conheceu o amor na vida e vai morrer sozinho, pois todos os seus amigos estarão ausentes no seu funeral.
O ocupado é uma verdadeira fraude humana. Afinal de contas, vamos combinar, ninguém realmente ocupado tem tempo de entrar no MSN. É o tipo de pessoa que se esforça demais em mostrar mais do que realmente é (e geralmente não é de nada). A bolinha vermelha urge em alertar: “estou ocupado, interaja comigo por sua conta e risco”. A ocupação, no caso, quando muito, é algo do gênero um looping infinito de visualizações do vídeo de cinco segundos da marmota dramática no Youtube. Trata-se de alguém com um agravante histórico de psicoses mal elaboradas. Guarde estas palavras: em um dia qualquer, o ocupado do MSN ainda vai pegar o seu carro e atropelar a primeira passeata de ciclistas que aparecer.
O invisível é tipo mais perigoso. Você pensa que ele está offline e, de repente, aparece uma caixinha de mensagem, assim, do nada. Sequer tem tempo para um “olá, tudo bem”. O invisível já desova, de cara, links de sites e blogs recheados de teorias da conspiração. Ah, claro... O invisível sofre de transtorno paranoide e carrega a tiracolo uma extensa coleção de TOCs. É um verdadeiro milagre ele ter um perfil no MSN. E passará todo o tempo tentando lhe convencer que a Microsoft rastreia todas as suas mensagens e que a internet é um grande plano diabólico de domínio global, seja qual for o bandidão da vez. Ele não vai sossegar enquanto não atingir o seu objetivo: trazer você para o universo da bolinha branca.
Por fim temos o disponível. Um chato insuportável. A bolinha verde ilustra um tipinho obcecado por interatividade do qual você se arrependeu de ter passado o contato. Ele trocou todas as letras da sua caixa de mensagens por emoticons animados e cada frase que ele posta é um árduo exercício de criptografia. O disponível lhe faz considerar seriamente a possibilidade em se tornar um ocupado, ausente ou invisível, o que vai acarretar em graves conseqüências para o seu bem-estar emocional.
Assim, concluindo esta análise, podemos perceber que, seja qual for o tipo de status, freqüentar o MSN pode ser uma experiência totalmente prejudicial à saúde física e mental. Um verdadeiro cianureto virtual. Mas nem tudo está perdido. Antes que você se desespere e resolva tacar fogo no seu personal computer (ou em você mesmo, caso seja um invisível), arrisco sugerir algumas atividades saudáveis que estavam muito em voga no século passado: ler um livro, sair pra dançar, fazer sexo ou qualquer outra coisa que não envolva um mouse, uma tela de LCD e uma webcam.
Agora, se você já não consegue mais viver sem teclar... Se sua vida não faz mais sentido sem conectar o seu MSN... Então se joga! Vai com tudo, porque todos sabemos que o ciberespaço é a nova televisão: uma experiência sem volta. Apenas tenha sempre em mente o mantra dos comerciais de bebida alcoólica: aprecie com moderação, seja qual for a cor de sua bolinha.
Para quem não sabe o que é MSN, aqui vai uma introdução: Deus criou o homem. O homem criou o MSN. Mais detalhes na Wikipedia.
Já quem apenas faz que não sabe o que é MSN (“eu uso skype”), vai correndo ali na esquina que estão precisando de você para um instigante debate sobre as diferenças gritantes entre Coca e Pepsi.
Aos que sabem muito bem o que é MSN, e já se autoescravizaram no bate-papo virtual, vamos ao que interessa.
Na lista de contatos do MSN, existem quatro maneiras de se apresentar aos amigos: ausente, ocupado, invisível e disponível. Atentem que eu coloquei disponível por último, apesar de que, via de regra, seria o status principal de apresentação de um messenger. Mas em tempos individualistas, ninguém realmente quer estar disponível. Portanto começaremos nossa análise pelo ausente.
O ausente é aquele tipo antipático que não tem pudor em ser desagradável. Interagir com outras pessoas pra ele, mesmo que de forma virtual, é uma experiência incômoda. A bolinha laranja defende a seguinte premissa: “olha, eu até estou aqui, mas faz de conta que não estou, okay?”. Se você ainda tiver disposição para insistir e puxar conversa (que, neste caso, invariavelmente começa com “oi, você está aí?”), ele ainda vai demorar um ou dois minutos para responder, num esforço patético de simular que realmente estava ausente. É um depressivo crônico que nunca conheceu o amor na vida e vai morrer sozinho, pois todos os seus amigos estarão ausentes no seu funeral.
O ocupado é uma verdadeira fraude humana. Afinal de contas, vamos combinar, ninguém realmente ocupado tem tempo de entrar no MSN. É o tipo de pessoa que se esforça demais em mostrar mais do que realmente é (e geralmente não é de nada). A bolinha vermelha urge em alertar: “estou ocupado, interaja comigo por sua conta e risco”. A ocupação, no caso, quando muito, é algo do gênero um looping infinito de visualizações do vídeo de cinco segundos da marmota dramática no Youtube. Trata-se de alguém com um agravante histórico de psicoses mal elaboradas. Guarde estas palavras: em um dia qualquer, o ocupado do MSN ainda vai pegar o seu carro e atropelar a primeira passeata de ciclistas que aparecer.
O invisível é tipo mais perigoso. Você pensa que ele está offline e, de repente, aparece uma caixinha de mensagem, assim, do nada. Sequer tem tempo para um “olá, tudo bem”. O invisível já desova, de cara, links de sites e blogs recheados de teorias da conspiração. Ah, claro... O invisível sofre de transtorno paranoide e carrega a tiracolo uma extensa coleção de TOCs. É um verdadeiro milagre ele ter um perfil no MSN. E passará todo o tempo tentando lhe convencer que a Microsoft rastreia todas as suas mensagens e que a internet é um grande plano diabólico de domínio global, seja qual for o bandidão da vez. Ele não vai sossegar enquanto não atingir o seu objetivo: trazer você para o universo da bolinha branca.
Por fim temos o disponível. Um chato insuportável. A bolinha verde ilustra um tipinho obcecado por interatividade do qual você se arrependeu de ter passado o contato. Ele trocou todas as letras da sua caixa de mensagens por emoticons animados e cada frase que ele posta é um árduo exercício de criptografia. O disponível lhe faz considerar seriamente a possibilidade em se tornar um ocupado, ausente ou invisível, o que vai acarretar em graves conseqüências para o seu bem-estar emocional.
Assim, concluindo esta análise, podemos perceber que, seja qual for o tipo de status, freqüentar o MSN pode ser uma experiência totalmente prejudicial à saúde física e mental. Um verdadeiro cianureto virtual. Mas nem tudo está perdido. Antes que você se desespere e resolva tacar fogo no seu personal computer (ou em você mesmo, caso seja um invisível), arrisco sugerir algumas atividades saudáveis que estavam muito em voga no século passado: ler um livro, sair pra dançar, fazer sexo ou qualquer outra coisa que não envolva um mouse, uma tela de LCD e uma webcam.
Agora, se você já não consegue mais viver sem teclar... Se sua vida não faz mais sentido sem conectar o seu MSN... Então se joga! Vai com tudo, porque todos sabemos que o ciberespaço é a nova televisão: uma experiência sem volta. Apenas tenha sempre em mente o mantra dos comerciais de bebida alcoólica: aprecie com moderação, seja qual for a cor de sua bolinha.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Tic-tac
Por favor, não cheguem perto de mim. Todos correm um grande risco de vida quando se aproximam. Eu posso explodir a qualquer momento! Eu sou um homem-bomba! Não estou aqui em nome de nenhuma facção religiosa e/ou política. Minhas explosões não seguem este critério. E também não preciso de nenhum tipo de explosivo químico, industrial, nitroglicerina, nada. Nem mesmo de Menthos com Coca-Cola. Eu já nasci assim, com o dom da combustão espontânea. Cada cidade que eu chego entra automaticamente em estado de atenção. Junto com terremoto, tsunami e vazamento de reator nuclear, eu sou considerado uma calamidade pública.
Já fui estudado por renomados cientistas nestas minhas décadas de existência, mas ainda não se chegou a um consenso sobre a origem de minha tendência destrutiva. Alguns especialistas defendem a hipótese de que uma personalidade agressiva, somada a uma hipersensibilidade emocional e aditivada por anos de mingau de farinha láctea compuseram um quadro de catástrofe eminente. E enquanto não chegam a uma conclusão definitiva, o número de vítimas de meus acessos só vem aumentando.
Muitos acreditam que seja um desígnio do Criador. Outros dizem que é coisa do demônio. Há quem acredite que a minha mãe comeu muita comida mexicana na minha gravidez. Eu não sei responder porque eu sou, assim, tão explosivo. Apenas sei que basta um movimento em falso e tudo vai pelos ares. É só eu ficar ansioso e kabum!
Por conta disso, eu já explodi muitas empresas, no momento em que fui fazer entrevista de emprego. Não é fácil ficar frente a frente com aquele diretor de marketing analisando friamente o seu currículo. Aquele silêncio angustiante. Na primeira flexão enigmática de sombrancelha do entrevistador eu detonava. Já levei cinco multinacionais à falência por conta disso. Dentista só me trata com anestesia geral. E fila no banco não é problema pra mim. No que eu chego na agência, aquela gente amontoada se abre para eu passar, como se fosse a passagem bíblica do Mar Vermelho. Amigos só virtuais em redes sociais. Que é para manter uma distância segura.
Já criei o entendimento de que eu deveria viver só. Assim eu não crio expectativas em relação às pessoas, não alimento sentimentos e, portanto, não explodo. Mas existe uma coisa denominada “o chamado da natureza”. É chato ficar sozinho. Inevitavelmente acabo sonhando com uma companhia aprazível, para se passar bons momentos. Mas o sonho sempre vira pesadelo. A lista de pretendentes que eu já explodi enche um caderno de dez matérias. Se não é no flerte desajeitado no bar, o hecatombe sempre chega no clímax do ato sexual. Não tem jeito, sexo comigo é bombástico. Literalmente. Tanto que, por decreto, estou proibido de freqüentar qualquer motel, sauna ou casa de suingue.
Já me propuseram de tudo para, se não resolver, pelo menos amenizar o meu problema. A começar pelas drogas, sejam elas controladas ou descontroladas. Mas eu prefiro não tentar, porque pode dar um efeito rebote, entrar numa bad trip e promover o Apocalipse antes de 2012. Outra solução que me apresentaram foi o caminho da espiritualidade: meditação, regressão, terapia de vidas passadas, oráculos, e mais uma série de técnicas desconcertantes. 90% delas envolviam a utilização de incensos com cheiro de sabonete queimado. Estes dias eu aceitei o convite para jantar com uma pessoa interessante. Por conta e risco dela. Felizmente deu tudo certo, bastou eu me entupir de suco de maracujá e não tomar café na saída. Gostei dela, mas começou a bater uma aflição! Será que ela também gostou de mim? E como será o segundo encontro? Será que vai funcionar? O que veio primeiro: o ovo ou a galinha? Eram os deuses astronautas? Por conta de minha fase espiritual, resolvi jogar o iChing. O hexagrama sugeriu fracasso tanto na atitude de pressa quanto na desistência. Sucesso apenas na perseverança que faz as coisas acontecerem no seu tempo . Maldita filosofia ancestral chinesa! Como um povo que não consegue parar de procriar vem me falar de equilíbrio emocional? Explodi o livro com moedinha e tudo.
Hoje, eu penso que, ao invés de tentar solucionar esta situação, eu devo parar de encarar meu dom de explodir como um problema. E começar a enxergar como uma oportunidade. Venho promovendo uma campanha de explosão voluntária que está em turnê por todas as regiões do país. Já explodi postos de pedágio em estradas sem manutenção, cultos religiosos que extorquem o dinheiro dos pobres, prefeituras de cidades mal administradas (muitas, por sinal) e também tenho explodido trio elétrico de cantoras de axé, porque ninguém merece. Daqui parto para Brasília, onde pretendo promover uma explosão apoteótica, com direito a show de fogos, no intuito de varrer o histórico de corrupção que se perpetua neste país. Espero conseguir com isso um tremor de 9,2 na Escala Richter, até porque o povo brasileiro anda precisando de uma sacudida. Agora, me deem licença. Eu vou nessa porque o meu timer já está contando. Tic-tac, tic-tac, tic-tac...
Já fui estudado por renomados cientistas nestas minhas décadas de existência, mas ainda não se chegou a um consenso sobre a origem de minha tendência destrutiva. Alguns especialistas defendem a hipótese de que uma personalidade agressiva, somada a uma hipersensibilidade emocional e aditivada por anos de mingau de farinha láctea compuseram um quadro de catástrofe eminente. E enquanto não chegam a uma conclusão definitiva, o número de vítimas de meus acessos só vem aumentando.
Muitos acreditam que seja um desígnio do Criador. Outros dizem que é coisa do demônio. Há quem acredite que a minha mãe comeu muita comida mexicana na minha gravidez. Eu não sei responder porque eu sou, assim, tão explosivo. Apenas sei que basta um movimento em falso e tudo vai pelos ares. É só eu ficar ansioso e kabum!
Por conta disso, eu já explodi muitas empresas, no momento em que fui fazer entrevista de emprego. Não é fácil ficar frente a frente com aquele diretor de marketing analisando friamente o seu currículo. Aquele silêncio angustiante. Na primeira flexão enigmática de sombrancelha do entrevistador eu detonava. Já levei cinco multinacionais à falência por conta disso. Dentista só me trata com anestesia geral. E fila no banco não é problema pra mim. No que eu chego na agência, aquela gente amontoada se abre para eu passar, como se fosse a passagem bíblica do Mar Vermelho. Amigos só virtuais em redes sociais. Que é para manter uma distância segura.
Já criei o entendimento de que eu deveria viver só. Assim eu não crio expectativas em relação às pessoas, não alimento sentimentos e, portanto, não explodo. Mas existe uma coisa denominada “o chamado da natureza”. É chato ficar sozinho. Inevitavelmente acabo sonhando com uma companhia aprazível, para se passar bons momentos. Mas o sonho sempre vira pesadelo. A lista de pretendentes que eu já explodi enche um caderno de dez matérias. Se não é no flerte desajeitado no bar, o hecatombe sempre chega no clímax do ato sexual. Não tem jeito, sexo comigo é bombástico. Literalmente. Tanto que, por decreto, estou proibido de freqüentar qualquer motel, sauna ou casa de suingue.
Já me propuseram de tudo para, se não resolver, pelo menos amenizar o meu problema. A começar pelas drogas, sejam elas controladas ou descontroladas. Mas eu prefiro não tentar, porque pode dar um efeito rebote, entrar numa bad trip e promover o Apocalipse antes de 2012. Outra solução que me apresentaram foi o caminho da espiritualidade: meditação, regressão, terapia de vidas passadas, oráculos, e mais uma série de técnicas desconcertantes. 90% delas envolviam a utilização de incensos com cheiro de sabonete queimado. Estes dias eu aceitei o convite para jantar com uma pessoa interessante. Por conta e risco dela. Felizmente deu tudo certo, bastou eu me entupir de suco de maracujá e não tomar café na saída. Gostei dela, mas começou a bater uma aflição! Será que ela também gostou de mim? E como será o segundo encontro? Será que vai funcionar? O que veio primeiro: o ovo ou a galinha? Eram os deuses astronautas? Por conta de minha fase espiritual, resolvi jogar o iChing. O hexagrama sugeriu fracasso tanto na atitude de pressa quanto na desistência. Sucesso apenas na perseverança que faz as coisas acontecerem no seu tempo . Maldita filosofia ancestral chinesa! Como um povo que não consegue parar de procriar vem me falar de equilíbrio emocional? Explodi o livro com moedinha e tudo.
Hoje, eu penso que, ao invés de tentar solucionar esta situação, eu devo parar de encarar meu dom de explodir como um problema. E começar a enxergar como uma oportunidade. Venho promovendo uma campanha de explosão voluntária que está em turnê por todas as regiões do país. Já explodi postos de pedágio em estradas sem manutenção, cultos religiosos que extorquem o dinheiro dos pobres, prefeituras de cidades mal administradas (muitas, por sinal) e também tenho explodido trio elétrico de cantoras de axé, porque ninguém merece. Daqui parto para Brasília, onde pretendo promover uma explosão apoteótica, com direito a show de fogos, no intuito de varrer o histórico de corrupção que se perpetua neste país. Espero conseguir com isso um tremor de 9,2 na Escala Richter, até porque o povo brasileiro anda precisando de uma sacudida. Agora, me deem licença. Eu vou nessa porque o meu timer já está contando. Tic-tac, tic-tac, tic-tac...
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